quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Quando Chega a Escuridão - Near Dark (1987)



"Reze Para Que Amanheça"



Quando Chega a Escuridão - feliz título nacional para o original Near Dark: algo como escuro eminente, próximo - é uma união de talentos então emergentes, como Eric Red - roteirista de A Morte Pede Carona (1986) - e Kathryn Bigelow, diretora e ex-mulher de James Cameron. Eric e Kathryn escreveram o roteiro dessa história contemporânea de vampiros em ambiente de Velho Oeste que tornou-se o primeiro sucesso de Bigelow na direção. Depois ela viria a realizar filmes como o bom thriller policial Jogo Perverso (Blue Steel, 1990, outra parceria no roteiro com Eric Red) com Jamie Lee Curtis e Ron Silver, ou a aventura Caçadores de Emoção (Point Break, 1991) estrelada por Keanu Reeves e Patrick Swayze; em 1995 dirigiu a ficção Estranhos Prazeres (Strange Days), com um Ralph Fiennes pré-O Paciente Inglês. Desde então, ela tem tido direções esporádicas e trabalhando mais em séries televisivas. Voltou à direção em 2000, com o insosso O Peso da Água (The Weight of Water), com Sean Penn, e voltou a uma melhor forma em 2002 com K19 - The Widowmaker, estrelado por Harrison Ford. Mas, ao que parece, Kathryn retornou com tudo, mesmo, em 2008, com The Hurt Locker, suspense de guerra passado no Iraque, tendo como tema um esquadrão anti-bombas que entra numa cidade onde qualquer canto pode guardar uma surpresa desagradável. O ótimo elenco traz Guy Pearce, David Morse, Ralph Fiennes e Evangeline Lili (a Kate, de Lost). Apesar da recepção fria no Festival de Veneza, o filme tem agradado em cheio aos fãs do gênero: no imdb.com a sua nota média tem sido 8.




Realizado no mesmo ano de Garotos Perdidos (Lost Boys), Quando Chega a Escuridão, a meu ver, o supera em vários aspectos, que o tornaram um cult. O elenco marcante misturava nomes experientes como Tim Thomerson a emergentes como Bill Paxton (A Mão do Diabo, Twister). A bela fotografia de Adam Greenberg dando ênfase ao contraste entre a claridade do dia no deserto e o anoitecer no mesmo. Outro ponto alto é a trilha sonora eletrônica do grupo alemão Tangerine Dream. O curioso é que essa trilha - lembro-me bem, já que na época adquiri o vinil - foi usada à torto e à direito por redes de televisão brasileiras, notadamente pelo SBT, pasmem, quando da exibição de A Hora do Pesadelo II. Faixas de Near Dark, como Bus Station, Severin Dies e Fight at Dawn foram usadas indiscriminadamente na versão dublada do filme de Freddy Krueger. Até hoje eu gostaria de entender o porquê dessa bizarrice.


A trama de Near Dark foca-se no fazendeiro Caleb (Adrian Pasdar, o Nathan de Heroes), jovem do interior poeirento dos Estados Unidos que, certa noite, envolve-se com a bela e jovem Mae (a loirinha Jennifer Wright, de Chuva de Chumbo), integrante de um grupo que rasga as infindáveis estradas do oeste ianque num furgão totalmente negro - janelas aí inclusas. Logo Mae estará sendo pressionada pelo sua família a decidir-se: ou Caleb torna-se seu alimento ou... Um beijo torna-se a salvação (ou não?) de Caleb, que, a partir de então, gradativamente vai-se tornando avesso à claridade. Relutante em aceitar sua nova condição vampírica, ele terá de aceitar ou encarar sua nova família: os patriarcas Jesse e Diamondback (Lance Henriksen e Jennete Golstein, respectivamente), o garoto Homer (Joshua Miller) e, principalmente, o feroz e psicótico Severin (forte atuação de Bill Paxton). Há muitos elementos marcantes nessa história: um quê de Romeu e Julieta no amor entre integrantes de famílias incompatíveis; um marcante traço de faroeste numa paisagem digna do gênero, com direito até a um duelo, onde Caleb lutará também pela vida de seu pai e sua pequena irmã; a mítica figura do sinistro furgão (que pode ou não ter inspirado o que é utilizado pelo monstro Jeepers Creepers, de Olhos Famintos); e um tratamento muito estiloso para com o mito do vampiro: eles queimam lentamente, até virar fumaça, quando expostos à luz do Sol; escondem-se sob panos pesados, dando um toque misterioso às suas figuras muitas vezes chamuscadas; chegam a tomar sangue em canecas, sangrando suas vítimas feito porcos; e - fato muito curioso - Kathryn Bigelow preocupou-se em não mostrar as presas dos sanguessugas em uma cena sequer, provavelmente buscando com isso um efeito de maior realismo, como se aquela troupe pudesse ser qualquer bando de lunáticos sedento por sangue. O desfecho também busca uma saída, por assim dizer, realista para o destino dos protagonistas.



Há muitos elementos que o aproximam de Os Garotos Perdidos (rapazes vampirizados lutando para proteger a família), mas a verdade é que Quando Chega a Escuridão tem um clima mais sombrio, ressaltado pelas paisagens desoladoras e a música marcante, e praticamente não tem descansos cômicos, como a dupla de Coreys (Haim e Feldman) de Lost Boys. Se muito, um humor nigérrimo na figura do psicopata Severin bebendo sangue em caneca, num ataque alucinado num bar muitos anos antes de Salma Hayek liderar a sangreira em Um Drink no Inferno. Por fim, Near Dark quase não escapou da mania (feia) dos estadunidenses de refilmar tudo quanto é clássico ou cult de terror. O produtor Michael Bay só desistiu da refilmagem graças ao sucesso de Crepúsculo, cuja trama é considerada muito parecida com Near Dark: o amor entre jovens onde a condição humana de um e vampírica de outro é o grande problema. Mas, convenhamos, Crepúsculo não é digno da mínima comparação com Quando Chega a Escuridão - esse, sim, um filmaço de terror que deveria ser descoberto pelas novas gerações que ficam a babar ovo por essa estorinha boba de vampiros sem sangue que está na moda.


Nota: 9/10

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