Meu primeiro contato com a obra-prima de Stanley Kubrick foi justamente no ano de seu lançamento, em 1980. Mas como, se na época eu tinha meus nove para dez anos e a censura do filme era 18 anos? Bem, na verdade o que me marcou muito foi o tease-trailler exibido antes do filme Superman 2, com os grandes Christopher Reeve e Gene Hackman. Era apenas uma cena: justamente a do elevador jorrando sangue. Imagine o impacto dessa hoje até singela cena (quer dizer, não muito...) na cabeça de um guri de 10 anos que ia pela primeira vez a um cinema...
O segundo contato com O Iluminado veio uns sete anos mais tarde, quando li o romance de Stephen King que inspirou o filme de Kubrick - inspirou, já que não é uma transcrição fiel para as telas. Ainda hoje um dos melhores livros que li, King é mestre em desfiar uma trama que vai num crescendo de tensão, os fatos macabros aparecendo aqui e ali e envolvendo aos poucos os personagens. Mesmo que King não tenha gostado do resultado final da versão cinematográfica (tanto que na década de 1990 ele, mesmo, roteirizou uma minissérie - inferior ao filme, mas bem interessante - onde, inclusive, vemos materializado o jardim com as esculturas vegetais em forma de animais ganhando vida, como no romance - no filme, o jardim dá lugar a um labirinto), é praticamente consenso que a atuação de Jack Nicholson como o escritor Jack Torrance é uma das mais marcantes do cinema de terror. Na época, Nicholson já havia sido consagrado pela atuação oscarizada no brilhante Um Estranho no Ninho, de Milos Forman.
Torrance é um escritor desempregado que aceita o emprego de zelador em um enorme hotel nas montanhas do Colorado (é, desta vez não é o Maine tão amado de Stephen King...), que fecha no inverno e fica cercado pela neve, em completo isolamento. Para lá ele leva a mulher Wendy e o filho de cinco anos, Danny. Sensitivo, o pequeno Danny logo começa a ter premonições e visões no local. Logo que chegam, ele trava contato com o cozinheiro Dick Hallorann (Scatman Crothers)- assim como Danny, um sensitivo. Hallorann logo percebe que Danny sente algo errado com o local, assim como ele próprio sente. Mas pouco após esse diálogo telepático, a família fica finalmente a sós. E logo o hotel Overlook começa a influir na personalidade de Jack, vindo de um difícil período de abstinência alcoólica iniciado após ele quebrar um braço de Danny (isso fica mais enfático no livro). Os moradores espectrais do lugar prontamente exploram esse fraco de Torrance e, sabe-se lá como, Jack encontra e toma uns drinks no bar do hotel. E os fatos estranhos começam a se suceder...

Danny começa a ter visões. Numa cena clássica, ele corre num triciclo pelos corredores dos quartos, quando se depara com as meninas gêmeas à sua frente. Jack, enquanto isso, sem se dar conta, trava contato com os espectros do local como se reais fossem. Estes o induzem à bebida. Jack não consegue escrever - e isso fica claro numa cena aparentemente simples, mas de efeito aterrador: Wendy lê o que está escrito na folha na máquina de escrever de Jack:
Repetida ad nauseum, também nas folhas pelo chão, Wendy começa a se dar conta que algo está errado. Jack passa a tratá-la aos gritos, inconformado com a intromissão em seu trabalho. Danny passa a ser fortemente induzido a matar a curiosidade sobre o quarto 237 (no livro era 217, mas, a pedido do dono do hotel onde foi filmado, o número foi trocado para que os clientes não tivessem receio e aversão quanto ao 217: o número de quartos no hotel não chegava ao 237 - fonte: site adorocinema.com), apesar da orientação de Hallorann quanto a evitar esse número. Como resultado de sua incursão a esse quarto, marcas de dedos no pescoço, como constata em desespero Wendy, que a princípio desconfia de Jack. Quando Danny conta o ocorrido, Jack vai verificar a verdade. A cena que se segue é daquelas de gelar a espinha: toda a preparação dela é um golpe de mestre de Kubrick, desde a trilha sonora tétrica, a montagem paralela, até a câmera perscrutando lentamente o interior do quarto e as expressões ensandecidas de Nicholson.

Como eu disse, tudo vai num crescendo de tensão. As instigações dos fantasmas ao personagem Jack sucedem-se umas às outras; Danny entra num transe e repete, do sussuro ao grito, a expressão red rum (rum vermelho?) enquanto a mãe dorme. Quando ela acorda, vê num espelho a expressão escrita na porta: "murder" (assasinato).
E o elevador que jorra sangue? Onde entra nessa?Essa é uma das visões do pequeno Danny. Só mais uma das muitas cenas marcantes da obra-prima que é este O Iluminado. Difícil escolher uma como predileta. Jack arrebentando uma porta a machadadas, indo no encalço da mulher e do filho, também é uma cena brilhante e assustadora, parece que a câmera acompanha o machado descendo e arrebentando a madeira. O curioso, não sei se muita gente notou, é que há um erro de continuidade nessa sequência: Jack para e olha para dentro do banheiro pelo buraco que fez na porta. Porém, logo depois vemos a mesma porta ainda sem o buraco, com Jack a golpeando novamente. Interessante ainda mais quando sabemos do perfeccionismo de Stanley Kubrick que, por exemplo, chegou a repetir uma cena 127 vezes, até tirar de Shelley Duvall (a Wendy Torrance) uma atuação que lhe satisfizesse - mais uma vez, obrigado ao Adoro Cinema.com pela informação.
Por falar em Shelley Duvall - vista naquele mesmo ano como a Olivia Palito, no filme de Robert Altman - ela chegou a ser indicada ao Framboesa de Ouro. Sinceramente, não vi sua atuação assim tão ruim para receber tal indicação. Para ela, restou o papel da mãe desesperada, gritando com o marido louco babando e a perseguindo com um machado. Queriam o quê? Que ela recitasse Hamlet enquanto corria com o filho? Falando nele, Danny Loyd, o garoto que interpreta o personagem seu xará, só veio a fazer mais um filme, um drama para a televisão. Seguiu suas vocações e tornou-se médico. Mas, a julgar por O Iluminado, também poderia vir a ser bem sucedido como ator. Suas expressões vão da ingenuidade infantil ao aterrorizado naturalmente. Diz-se que sua atuação rivaliza com a do próprio Nicholson, dono de alguns dos olhares mais insanos do cinema nesta obra.
O Iluminado é um terror climático, psicológico, explorando mais a tensão e o suspense que o gore, o explícito. Dirigido por um mestre capaz de obras como Spartacus, 2001, Laranja Mecânica, cenas que mais sugerem a violência do que a mostram - um alucinado destruindo uma porta com um machado, uma enxurrada de sangue em uma visão, garotas mortas no chão em outra - acabam tendo um efeito muito mais potente do que certas obras que buscam o impacto por cenas meramente apelativas. Pena que Kubrick - também lembrado pelos intervalos cada vez mais longos entre um filme e outro - não dirigiu mais nada no gênero.
Nota: 9,5/10
O segundo contato com O Iluminado veio uns sete anos mais tarde, quando li o romance de Stephen King que inspirou o filme de Kubrick - inspirou, já que não é uma transcrição fiel para as telas. Ainda hoje um dos melhores livros que li, King é mestre em desfiar uma trama que vai num crescendo de tensão, os fatos macabros aparecendo aqui e ali e envolvendo aos poucos os personagens. Mesmo que King não tenha gostado do resultado final da versão cinematográfica (tanto que na década de 1990 ele, mesmo, roteirizou uma minissérie - inferior ao filme, mas bem interessante - onde, inclusive, vemos materializado o jardim com as esculturas vegetais em forma de animais ganhando vida, como no romance - no filme, o jardim dá lugar a um labirinto), é praticamente consenso que a atuação de Jack Nicholson como o escritor Jack Torrance é uma das mais marcantes do cinema de terror. Na época, Nicholson já havia sido consagrado pela atuação oscarizada no brilhante Um Estranho no Ninho, de Milos Forman.
Torrance é um escritor desempregado que aceita o emprego de zelador em um enorme hotel nas montanhas do Colorado (é, desta vez não é o Maine tão amado de Stephen King...), que fecha no inverno e fica cercado pela neve, em completo isolamento. Para lá ele leva a mulher Wendy e o filho de cinco anos, Danny. Sensitivo, o pequeno Danny logo começa a ter premonições e visões no local. Logo que chegam, ele trava contato com o cozinheiro Dick Hallorann (Scatman Crothers)- assim como Danny, um sensitivo. Hallorann logo percebe que Danny sente algo errado com o local, assim como ele próprio sente. Mas pouco após esse diálogo telepático, a família fica finalmente a sós. E logo o hotel Overlook começa a influir na personalidade de Jack, vindo de um difícil período de abstinência alcoólica iniciado após ele quebrar um braço de Danny (isso fica mais enfático no livro). Os moradores espectrais do lugar prontamente exploram esse fraco de Torrance e, sabe-se lá como, Jack encontra e toma uns drinks no bar do hotel. E os fatos estranhos começam a se suceder...
Danny começa a ter visões. Numa cena clássica, ele corre num triciclo pelos corredores dos quartos, quando se depara com as meninas gêmeas à sua frente. Jack, enquanto isso, sem se dar conta, trava contato com os espectros do local como se reais fossem. Estes o induzem à bebida. Jack não consegue escrever - e isso fica claro numa cena aparentemente simples, mas de efeito aterrador: Wendy lê o que está escrito na folha na máquina de escrever de Jack:
"Muito trabalho e pouca diversão fazem de Jack um bobão"
Repetida ad nauseum, também nas folhas pelo chão, Wendy começa a se dar conta que algo está errado. Jack passa a tratá-la aos gritos, inconformado com a intromissão em seu trabalho. Danny passa a ser fortemente induzido a matar a curiosidade sobre o quarto 237 (no livro era 217, mas, a pedido do dono do hotel onde foi filmado, o número foi trocado para que os clientes não tivessem receio e aversão quanto ao 217: o número de quartos no hotel não chegava ao 237 - fonte: site adorocinema.com), apesar da orientação de Hallorann quanto a evitar esse número. Como resultado de sua incursão a esse quarto, marcas de dedos no pescoço, como constata em desespero Wendy, que a princípio desconfia de Jack. Quando Danny conta o ocorrido, Jack vai verificar a verdade. A cena que se segue é daquelas de gelar a espinha: toda a preparação dela é um golpe de mestre de Kubrick, desde a trilha sonora tétrica, a montagem paralela, até a câmera perscrutando lentamente o interior do quarto e as expressões ensandecidas de Nicholson.
Como eu disse, tudo vai num crescendo de tensão. As instigações dos fantasmas ao personagem Jack sucedem-se umas às outras; Danny entra num transe e repete, do sussuro ao grito, a expressão red rum (rum vermelho?) enquanto a mãe dorme. Quando ela acorda, vê num espelho a expressão escrita na porta: "murder" (assasinato).
E o elevador que jorra sangue? Onde entra nessa?Essa é uma das visões do pequeno Danny. Só mais uma das muitas cenas marcantes da obra-prima que é este O Iluminado. Difícil escolher uma como predileta. Jack arrebentando uma porta a machadadas, indo no encalço da mulher e do filho, também é uma cena brilhante e assustadora, parece que a câmera acompanha o machado descendo e arrebentando a madeira. O curioso, não sei se muita gente notou, é que há um erro de continuidade nessa sequência: Jack para e olha para dentro do banheiro pelo buraco que fez na porta. Porém, logo depois vemos a mesma porta ainda sem o buraco, com Jack a golpeando novamente. Interessante ainda mais quando sabemos do perfeccionismo de Stanley Kubrick que, por exemplo, chegou a repetir uma cena 127 vezes, até tirar de Shelley Duvall (a Wendy Torrance) uma atuação que lhe satisfizesse - mais uma vez, obrigado ao Adoro Cinema.com pela informação.
Por falar em Shelley Duvall - vista naquele mesmo ano como a Olivia Palito, no filme de Robert Altman - ela chegou a ser indicada ao Framboesa de Ouro. Sinceramente, não vi sua atuação assim tão ruim para receber tal indicação. Para ela, restou o papel da mãe desesperada, gritando com o marido louco babando e a perseguindo com um machado. Queriam o quê? Que ela recitasse Hamlet enquanto corria com o filho? Falando nele, Danny Loyd, o garoto que interpreta o personagem seu xará, só veio a fazer mais um filme, um drama para a televisão. Seguiu suas vocações e tornou-se médico. Mas, a julgar por O Iluminado, também poderia vir a ser bem sucedido como ator. Suas expressões vão da ingenuidade infantil ao aterrorizado naturalmente. Diz-se que sua atuação rivaliza com a do próprio Nicholson, dono de alguns dos olhares mais insanos do cinema nesta obra.
O Iluminado é um terror climático, psicológico, explorando mais a tensão e o suspense que o gore, o explícito. Dirigido por um mestre capaz de obras como Spartacus, 2001, Laranja Mecânica, cenas que mais sugerem a violência do que a mostram - um alucinado destruindo uma porta com um machado, uma enxurrada de sangue em uma visão, garotas mortas no chão em outra - acabam tendo um efeito muito mais potente do que certas obras que buscam o impacto por cenas meramente apelativas. Pena que Kubrick - também lembrado pelos intervalos cada vez mais longos entre um filme e outro - não dirigiu mais nada no gênero.
Nota: 9,5/10
